CHAMADA DE TRABALHOS Nº 21, junho 2027, "Traição e tradição. Diálogos filosófico-históricos sobre a tradução na América Latina"

2026-01-27

Chamada de artigos para a secção “Estudos” do número 21 (junho de 2027)

Dossier: Traição e tradição. Diálogos filosófico-históricos sobre a tradução na América Latina

Editores associados a este número:

Dr. Juan Vicente Cortés, Universidad Alberto Hurtado, Chile.

Dr. Rafael Gaune, Pontificia Universidad Católica de Chile, Chile. Università di Padova, Italia.

No século XIX, Wilhelm von Humboldt afirmava que «toda tradução me parece simplesmente uma tentativa de realizar o impossível». Na mesma linha, Sigmund Freud, ao interpretar o famoso ditado italiano traduttore, traditore, concluía que existe uma espécie de «fatalidade pela qual o tradutor deve trair o seu autor». Para marcar essa impossibilidade, Franz Rosenzweig sustentava que «traduzir é servir a dois senhores». Durante o século XX, a tradução e a tradução como disciplina empreenderam esforços sistemáticos para compreender, ordenar e classificar esse fenómeno. De Walter Benjamin a Barbara Cassin, passando por Paul Ricoeur, Maurice Blanchot e George Steiner, a tradução tem sido abordada tanto como uma hospitalidade (a recepção de outra língua) quanto como uma estrangeiridade (o intraduzível).

Esta reflexão, que faz parte integrante das ciências humanas e sociais, leva-nos a considerar que toda tradução é, em última instância, uma interpretação (ad sententiam, como propunha Leonardo Bruni). Isto implica não só que o objetivo do tradutor deve ser o sentido, mas também que esse sentido só adquire significado dentro de um contexto histórico, linguístico, conceptual e institucional.

Por isso, este dossiê convida historiadores e filósofos que tenham enfrentado problemas de tradução e decisões tradução-lógicas nas suas investigações a contribuir para uma reflexão crítica sobre um fenómeno que é, sem dúvida, constitutivo da forma como se pensa na América Latina: através da transposição, interpretação ou transliteração de conceitos, palavras e ideias entre diferentes línguas. De facto, o próprio conceito de «América Latina» pode ser considerado um problema de tradução.

Por isso, este dossiê convida historiadores e filósofos que tenham enfrentado problemas de tradução e decisões tradução-lógicas nas suas investigações a contribuir para uma reflexão crítica sobre um fenómeno que é, sem dúvida, constitutivo da forma como se pensa na América Latina: através da transposição, interpretação ou transliteração de conceitos, palavras e ideias entre diferentes línguas. Na verdade, o próprio conceito de «América Latina» pode ser considerado um problema de tradução.

Não se pretende fazer uma história da tradução, mas explorar a possibilidade do diálogo — ou, se se preferir, da ponte (às vezes cortada), do cruzamento (com os seus acidentes), do encontro e do desencontro — entre a história e a filosofia. O objetivo é estudar casos latino-americanos que dão conta de textos, autoras e autores traduzidos; práticas de tradução; decisões traduzológicas; investigadores e intelectuais que foram traduzidos para outras línguas ou que exerceram como tradutores. Para precisar esse “diálogo sobre o diálogo”, propomos abordá-lo a partir do eixo da tradução com suas duas faces: a tradição e a traição. Nos interessa testar o diálogo com a história (para os filósofos) ou com a filosofia (para os historiadores), por meio de casos significativos em que a tradução revele a tradição da traição ou a traição da tradição.

Linhas principais:

  • Tradução e interpretação de conceitos da filosofia ou da história

Análise de como conceitos filosóficos ou históricos (como «América Latina») foram transferidos, reinterpretados ou traduzidos entre idiomas, considerando os seus contextos histórico-culturais e tradutológicos.

  • Casos de recepção de obras estrangeiras por tradutoras e tradutores latino-americanos

Estudo da recepção latino-americana de textos, examinando como as decisões de tradução afetam a interpretação, a difusão e a apropriação do pensamento em outros contextos linguísticos.

  • Práticas tradutológicas e decisões do tradutor em filosofia e história

Investigação sobre estratégias de tradução, transliteração e interpretação de textos, incluindo a análise dos tradutores como mediadores entre a tradição e a traição, e o seu impacto na construção do sentido.

  • Diálogo entre história e filosofia através da tradução

Exploração de como a tradução permite colocar em tensão tradições

disciplinares, revelando desacordos, cruzamentos e pontes entre história e filosofia no contexto latino-americano.

  • A tradução como ato político e cultural

Reflexão sobre as implicações culturais, ideológicas ou políticas da tradução na América Latina, incluindo a forma como tradutores e intelectuais negociam autoridade, fidelidade e criatividade em contextos de pluralidade linguística.

Palavras-chave: Tradução, interpretação, recepção, tra(d)ição, América Latina, práticas tradutológicas.

O prazo para a apresentação de comunicações termina a 1 de outubro de 2026.

Os textos podem ser apresentados em espanhol, inglês e português.

As contribuições devem estar em conformidade com as diretrizes editoriais da revista: http://revistas.um.edu.uy/index.php/revistahumanidades/about/submissions

Os trabalhos devem ser enviados para a plataforma OJS da revista.

 

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